Estava em meu consciente. Partes a experimentar, os restantes sabiam o que estavam sentindo. O cheiro era inconfundível, poderiam chamar do que fosse para alterar minha imaginação, a essência o denunciaria.
Não tinha como prender a respiração, queria parar aquele cheiro de esterilizados, ferramentas diariamente usadas, roupas limpas, e afins de um local de cirurgia. Um dia normal, no outro previa de uma operação, e no outro, a cirurgia. O acolchoado falsamente colocado, para tapear as estruturas, me deixava mais incomodada, e impaciente temia se aquilo seria longo e doloroso.
Vários cobertores colocados sobre meu corpo faziam aquecer do frio que constantemente me fazia estalar. Olhei ao meu arredor deitada, assustada. Silenciei para posteriormente ouvir a voz das pessoas presentes. Havia uma mulher com seus quase trinta e cinco, engraçada, e um pouco larga dos lados, com braços fortes que naturalmente ficaria ali do meu lado para auxiliar o homem de óculos que seria o ator principal, se fosse o caso de um filme. Havia outra mulher, apesar dela acobertar os cabelos, os lados deixavam definidos, a cor castanha escuro dos seus cabelos, devia ser mais velha do que sua aparência nova poderia descrever. Ela parecia ser importante, calada e pouca extrovertida, ela ficaria o tempo inteiro: sentada – como se estivesse atenta para ter o que colocar em ata, não sei também, posso estar errada, mas era mais como uma observadora, me fez lembrar um filme cujo nome não lembro agora que algumas pessoas ficavam em pé a esperar os outros morrerem. Porém não era o caso. Havia mais uma mulher, uma estudante da área da saúde, não tão mais velha que eu. Pensei como ela teria estomago para tudo aquilo, intrigante em meus pensamentos silenciados pelo momento.
As três prontamente prestativas. Não sei se a função é mais uma característica de obrigação, ou pura naturalidade. Optei pelo meu instinto e fiquei com a simplicidade. Ansiava sair correndo, se estive tão disposta, não pensaria duas vezes.
O longo interrogatório meu sobre o gel passado em minha perna direita, os equipamentos ao meu redor, e outrora, me acalmavam por hora, saberia que desse jeito eu iria com calma. Logo, o homem que tanto temi, chegara. Sua vasta experiência, se caracterizava no rosto e principalmente nas marcas de velhice, ele ainda mostrara ser igual a idade a deixar de retocar os fios vividos. Educado, perguntara coisas superficiais, mantendo profissionalismo, a fim de acalmar o que estava tão claro, o meu nervosismo. Não sabia se aquilo me enlouqueceria, ou se eu julgara ser tão temeroso quanto meus sonhos deixaram ser. Ele ria, para eu rir junto, em algumas situações atendi isso. Ele me explicou as escolhas que eu teria, não prestei muito a atenção nisso, quando ele sugeriu fazer o melhor, deixei nas mãos dele minha escolha. Ouvi no silencio, “vai doer mais, incomodar, porém vai ser um sacrifício só um dia”, eu despertei do transe, algo devia ficar serio, não queria muito pensar nisso.
A estudante limpou a parte o suficiente que seria quase uma novela depois, tentei ficar quieta o tempo que pude e isso até durou muito. As outras duas, me cobri meu corpo com vários lençóis, brancos e azuis, deixando a parte esterilizada em aparência. Meu rosto meio coberto me deixara ver um cenário do quarto, tudo o que virá: um extintor, e cadeira. Quando ele voltou vestido para começar tudo, me assegurou que daria tudo certo, e disse que o primeiro passo seriam as anestesias, não sentir dor era o propósito maior. Lembrei de como me senti nas outras cirurgias e me preocupe ao lembrar como se sentia tirando sangue para exames. Precisei de alguém que estivesse ali, eu pensei em alguém, e logo me forcei a fugir da mente, pensei se anjos realmente existiam, e se ele estaria no mesmo lugar que meu olhar perdido se acostumou a fixar.
As primeiras agulhadas começariam, e eu começaria a cantar uma música para me subjugar a tudo aquilo. A letra da musica pouco importou, foi a primeira em meus pensamentos, e eu baixinho cantava de qualquer jeito, uma forma de anular o outro sentimento que parecia me matar superficialmente. Acreditei estar em jogos mortais, ou algo parecido, pedi até misericórdia em raros momentos. Você ainda sim não vai saber como foi sentir.
“Acabou.” – o médico disse. Julgando pela ultima vez que olhará no relógio, já tinha se passado quase uma hora. Não sabia se tinha sido por completo, ou se ainda restava algo a ser finalizado. Eu não acreditei muito, e foi então que eu percebi minhas lagrimas e agonia, não fiquei zonza, mas gostaria de não ter que passar por isso. E me desmanchei em lagrimas, acreditando que algo ainda estava errado, não, era meu pés que ainda não estavam no chão.
Meus passos ao chão ainda tontos, levavam me a sala de espera. Menos claro que o outro cômodo, mas a luz não significava nada, eu precisa saber como funcionava a respiração outra vez. Eu não sentia dor, mas eu não achava que estava bem. Logo estaria, quando senti a cabeça encontrar o travesseiro. Respirei fundo, e os sonhos tomaram por conta.
(ALBUQUERQUE, Willa. O Ritmo da Chuva: ❝Onde Paramos.)
(ALBUQUERQUE, Willa. O Ritmo da Chuva: ❝Onde Paramos.)



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