terça-feira, dezembro 16

No Fundo da Mente

Tudo cai em silêncio. O tempo, esse artesão impiedoso, racha o coração sem pedir licença. Eu não vi o começo da história de vocês, mas sinto os ecos. Ela foi o seu lugar no mundo por um instante, e você foi o dela, até que o amor, cansado, aprendeu a partir.

Ela chorou em mim como quem encosta a testa na chuva. Eu apenas fiquei. Às vezes, ficar é tudo o que se pode fazer. Foi assim que nos aproximamos — não por escolha, mas por consequência — e durou até um momento, esse periodo que sempre parece despedida.

Você diz que me ama, e eu escuto. Mas há palavras que não alcançam certas sombras. Eu tento empurrar o passado para trás, empilhar dias novos sobre dias antigos, fingir que isso basta. Não basta.

Ela vive no fundo da minha mente como um calor que não se explica. Uma febre mansa, constante. Um fogo baixo que ilumina e queima ao mesmo tempo. Às vezes penso que é um aviso, outras vezes, um erro já cometido. Talvez exista uma linha invisível que atravessei sem saber.

As coisas boas não permanecem. A vida corre depressa demais para comparações. Ela era diferente de mim? Leve? Solta? Feita de vento? Coragem? Eu sou feita de perguntas.

Quando você me toca, meu corpo escuta o que você não diz. E eu me pergunto — sempre — como foi para ela. Chorei sozinha em um quarto de hotel, cercada por paredes que não sabiam meu nome. Guardei a dor comigo, como quem protege algo frágil. Você não quis machucar. Mesmo assim, doeu.

E às vezes me pergunto se ela ainda mora em você. Se aparece, discreta, no fundo dos seus pensamentos. Se, ao olhar nos meus olhos, você a reconhece ali — não como saudade, mas como rastro.

sexta-feira, outubro 3

Sonho em Pedra e Silêncio

Sonhei que viajava para outro estado e me hospedava em uma pousada. Lembro apenas de chegar com as malas, tomar um drink e, de repente, apagar. Quando acordei, estava deitada sobre uma pedra, ao lado de outras pessoas. Uma moça me explicou que eu havia chegado cansada e adormecido ali mesmo, na área externa da pousada.

Logo depois, uma funcionária da limpeza, com um olhar muito triste, me ofereceu algo para beber. Assim que tomei, flashes começaram a surgir na minha mente. Ela me contou que, desde o momento em que eu cheguei, eles me dopavam e me maltratavam sem que eu percebesse. Disse que era uma prática comum naquele lugar.

Vi meu celular e percebi que, naquele mesmo dia, eu tinha uma passagem marcada para voltar para casa. A moça continuou: contou que, por eu ser “rebelde”, me deixavam dias sem comida, sem roupas, exposta ao sol, sempre drogada. Quando eu “me comportava”, deixavam o efeito da droga passar — mas eu não me lembrava de nada disso. Apenas daquele dia específico em que acordei. Durante esse tempo, pegavam meu celular e se passavam por mim nas redes sociais.

Imediatamente comecei a juntar minhas coisas para ir embora. A moça me ajudava. Mas um rapaz da pousada percebeu minha movimentação e começou a me questionar. Eu respondia, nervosa, que tinha pressa para não perder o voo. Quando terminei de arrumar as malas, ele insistiu em me levar, mas eu disse que já estava tudo resolvido e que alguém iria me buscar.

De repente, todos os hóspedes começaram a dizer que iam sair, e a casa foi esvaziando — só o rapaz ficou. Com muita sede, bebi água da geladeira. Logo notei que a funcionária da limpeza tinha ido até a portaria. Fui atrás dela, com medo de ficar sozinha. Ao chegar à frente do local, procurei por ela, mas comecei a me sentir mal. Afastei-me da casa e sentei no chão para me recuperar.

Quando dei por mim, já era noite. O homem ainda estava sozinho na casa. Corri, peguei minhas coisas e saí apressada. Mas percebi que meu celular havia sumido. Ao chegar no aeroporto, pedi para usar o telefone na área de atendimento e liguei para o meu pai, dizendo que precisava de ajuda e pedindo para ele me esperar lá. Estava com medo de que alguém daquela quadrilha estivesse me vigiando.

Voltei para casa sem meu celular. Meu pai, já atento às minhas redes sociais, percebeu que continuavam se passando por mim, postando fotos minhas e atualizações da pousada.

E então, acordei.

sexta-feira, março 6


“Estava frio demais para sairmos lá fora, mas mesmo não se importando com isso, com os nossos finos casacos corremos para fora e nós jogamos no pequeno quintal que tinha ali. Era um noite fria, mas o céu estava aberto, tinha muitas estrelas, centenas, milhares. Então você segurou a minha mão, aproximou o seu corpo do meu, sussurrou algo carinhoso e logo depois, antes que eu pudesse raciocinar o que você tinha dito, você depositou um beijo, nos meus lábios, ficou ali parado por alguns minutos e quando se levantou, disse adeus e foi embora, me deixando ali completamente perdida sob um céu estralado.”
- D. Fagundes, céu estrelado


sábado, agosto 25

Como saber quem eu sou de verdade?


Já teve um despertar de que se perdeu e não consegue se mais se encontrar? Não tem haver com crise de idade, mas sim das escolhas de que teve que fazer para chegar aonde chegou. Do tanto que teve que abrir mão, dos erros que carregam no peito, dos silêncios que te fizeram não ter paz. Já não sei mais quem sou de verdade.

Eu tinha esquecido do porque que comecei a escrever, e acredito ser por mim. Lembro-me da garota tímida que carregava felicidade e tristeza, e de como via o mundo em cores vivas. Não sei como ela se encontrou, mas sei de como ela se perdeu. Desapareceu.

Como voltar para casa? Eu me sinto vivendo um dia após o outro, largada e implorando que isso acabe o mais rápido que puder. Não entendo os planos de Deus, só espero que faça sentido. Porque não me vejo limpa.

Sentado no chão do banheiro, deixo a água cair sobre meu corpo e a presença da paz reina. Procurando proteção de quem um dia alcançou e conseguiu deixar escapar dentre os dedos. E ainda posso viver a chuva sobre em mim, de olhos fechados percebo minha alma se envolver em fino caso de compaixão. Buscando ter forças para seguir em frente, só não quero que acabe, porque sei que quando voltar, eu vou voltar para todos os meus problemas e encarar pessoas com um sorriso estando fingindo ser alguém que eu não sou. Na real, não sei nem quem eu sou de verdade. Eu me perdi, eu fugi, e não sei o caminho de volta.

Ela se cansa.

sexta-feira, agosto 24


© O Ritmo da Chuva.
Maira Gall